"A natureza não é apenas aristocrática, ela também é esotérica. No entanto, nenhum homem sábio será induzido a fazer do que sabe um segredo, pois percebe muito bem que o segredo do desenvolvimento psíquico nunca pode ser traído, simplesmente porque o desenvolvimento é uma questão de capacidade individual". Jung em "O desenvolvimento da personalidade" Obras completas,v.XVII
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
O lado sombrio
Não faz muito tempo, voltei de uma entrevista de emprego, quando a entrevistadora me questionou aquela clássica: "me fala um defeito seu". Eu devolvi no mesmo estilo: "ansiedade".
Para o espanto da entrevistadora, ela perguntou como é lidar com isso sendo terapeuta. Foi daí que eu tentei responder a pergunta e a altura, isto é, como terapeuta seguidora da psicologia analítica, cheia de teorias e encantamentos. Na certa, me embananei ainda mais e nada saiu de acordo. Agora eu explico nesse texto com calma e com a ajuda dele: Jung. Deixo então aqui minha contribuição reparadora.
O que eu tentava explicar é que, apesar do lado sombrio- a ansiedade, cheia de mazelas, devaneios, crises (crise de choro, de engasgo, de enjôo, de rolo, de espera e outras) em um setting terapêutico, é possível manter os anseios, sustentar os vícios, crenças e centrar no paciente. Dai a considerar- esse é o ponto, a tal da sombra como aquela capaz de emergir o potencial da transformação e compensação.
O que significa tudo isso? De uma maneira simples e resumida, aos leigos, deve dizer que a sombra é tudo aquilo que não nos demos conta sobre nós mesmos, é o lado esquecido e negado. Não há maneira de construir a persona (aquela carcaça sobre a qual nos apresentamos e construímos os pensamentos mais conscientes) sem a sombra. Nesse caso, devemos pensar que a sombra e persona são duas polaridades, na qual uma tenta compensar a outra.
É claro que descobrir o lado sombrio, muitas vezes é um processo árduo e não tão simples assim, como responder qual é o seu defeito. O lado sombrio pode esconder armadilhas em uma rede complexa de forças atuantes que vão e vem constantemente, sem nos darmos conta. Ela se configura muitas vezes como algo que está longe, impalpável e até mágico, como, por exemplo, nos sonhos. Mas não se enganem, ela pode aparecer também nas nossas escolhas de vida importantes ou não, sem percebermos.
A sombra por ter esse caráter esquecido, negado, ela é muitas vezes confundida como algo destrutivo e errado, no entanto, ela pode muitas vezes desencadear uma reação saudável do ego, por exemplo, reagir com força de agressividade a uma situação intolerável.
A sombra existe para todos, aparece nos transtornos mentais, nos sonhos, no grupo, no coletivo, nas relações pais e filhos e na análise. Interessante notar, é que a cultura e a sociedade nos ampliam essa noção de sombra, representada, sobretudo, nas figuras dos ladrões, das crianças abandonadas e nos marginalizados em geral. É incrível pensarmos assim, mas em uma guerra, por exemplo, temos a oportunidade de projetar a sombra no inimigo e por isso o matamos, em uma tentativa de despersonalizá-lo.
Essas polaridades do bom e o do mal existem na vida. O mal existe por si só e em geral o negamos, partindo do princípio de que ele não existe. Algumas religiões contribuem significativamente para tal pensamento, fazendo um convite a se colocar o mau para fora, quando na verdade, a idéia do potencial criativo e transformador, parte da integração.
É possível dar algum contorno aos aspectos sombrios da psique, controlá-la em alguma medida, o que pode significar uma conversa com ela, trazê-la para consciência; esse exercício é de não negá-la e recriminá-la, ao contrário, é trazer a luz do conhecimento.
Nós vivemos nessa dança de energia entre os opostos, e é graças a essa função que para todos os considerados saudáveis, é possível atingir algum grau de equilíbrio entre essas forças que atuam.
Persona e sombra devem andar de mãos dadas, deve haver um diálogo entre elas. Não se pode negá-la e esconde-la ainda mais na caixinha preta dos nossos segredos. Se não deixarmos a sombra entrar livremente, certamente ela invade. Não vejo solução, se não ir de encontro à sombra, trazê-la para a consciência, somente assim é que parte o potencial da mudança.
Jung disse certa vez, e essa, por favor, leitores, anotem, vale à pena: “prefiro ser íntegro a ser bom”.
Mariane.
Assinar:
Comentários (Atom)
