terça-feira, 8 de junho de 2010

Demasiadamente Animus – A Pedra Preciosa



Jung chama de animus a contra parte masculina na psique feminina. Sendo contra parte, ela é sexual, podendo se tornar sombria ou não - ver texto “Lado Sombrio”. O animus está mais perto da consciência, portanto mais próximo da exposição para o mundo. Ele é manifesto em suas atitudes frente ao mundo masculino, diante de seus objetivos e metas pessoais; está ligado à execução, ao transcendente e ao espiritual, daí a considerar que ele vem carregado de suposições, idéias e opiniões.

Após a luta feminista que teve seu inicio desde o século XIX até aos anos atuais, como entender o animus em mulheres ocidentais ao final da primeira década do século XXI?

Se recorrermos aos traços culturais, isso também significa pensar na base arquetípica, a mulher é emersa em um universo sombrio e pouco explorador do mundo. Ela foi educada desde cedo para o cuidar da casa e a adequação da maternagem nos brinquedos infantis com efeito nas bonecas. Indo ainda mais longe, a mulher é se não o próprio lado sombrio do Cristianismo, explico: até onde sabemos, o próprio Corão fora escrito por homens; figuras mais do que mitológicas revestem a sabedoria religiosa aos olhares para a virgem santa (Santa Maria), uma mulher que ficara grávida, apesar de virgem. O corpo da mulher é virgem, ela não poderia ter gozo. Foi a mulher que comeu da maçã proibida, é a mulher que possui o corpo capital (o corpo é um atributo da mulher desde sua origem). Ela é proibida e tem na sua constituição, um lado sombrio e devastador.

Sendo assim, a armadilha está exposta; pergunto, pois, como é estar no mundo dessa forma? Parece-me que a mulher vive em busca de repetir um padrão masculino, valorizando os atributos masculinos e desvalorizando o feminino, como que se criando um animus que pudesse tomar conta da mulher. A masculinidade e a feminilidade são sempre exigidas da mulher, ao passo que do homem se exige apenas a masculinidade.

É uma constatação, senão uma curiosidade, reconhecer o quanto o animus se faz forte e presente nas relações conjugais e nas relações com o corpo. Comecemos pelas relações afetivas homem e mulher: o homem espera que as mulheres depositem as suas pedras mais preciosas, isto é, o animus no casamento. A mulher não só as entregam, como pedem para eles cuidarem. Vejo tantas mulheres no consultório ou mesmo grandes amigas culparem o marido, por exemplo, de não terem estudado e ficarem entediadas em casa cuidando do lar.

E a busca incessante pelo famoso príncipe encantado? Pois saibam amigas leitoras, não é ele que chega como um rasgado de suspiro, em um cavalo branco e madeixas loiras com espadas em um perfume deliciosamente envolvente, é o nosso animus que pode “matar o dragão”, pois é ele que lida com os problemas.
Pois bem, na modernidade do nosso século, e após lutas feministas, as mulheres vivem hoje em um discurso mais ou menos assim: “ora, os homens não servem para nada, para que o tê-los?!” Dessa forma, são então possuídas e infladas pelo animus, distanciando dos seus aspectos mais instintivos.

O que acontece então, quando nos deparamos com uma difusão cultural do culto ao corpo, do silicone, das plásticas, das influências das indústrias pornográficas e comerciais regendo padrões estéticos sobre os corpos femininos? Só para polemizar, o Brasil esta na primeira posição no ranking de paises onde mais se realizam plásticas por ano pois, é também um pais que recebeu grandes influências do cristianismo (vide parágrafos a cima).
Mais uma vez acredito que as mulheres revivem seu animus não pela busca transcendente e espiritual rumo ao conhecimento, efetivamente (característica essencial propulsionadora do animus), mas sim, por essa busca ao corpo perfeito.

Na década de 60 e 70, a mulher queria ser declaradamente e escancaradamente igual ao homem, pois eles tinham o poder; era a era dos cabelos curtinhos, das “sem seios”, das magrelas e quase despersonificadas de curvas Twiggy e Jean Seberg. Gradualmente, após a conquista do então dito “poder”, ou então, uma posição mais favorável nessa busca feminista, hoje se valorizam os “bundões” e “peitões”, sob a forma de um corpo feminino e com curvas, porém, ainda inscritos por uma espécie de tirania ao corpo.

O universo feminino permaneceu no obscuro, sobretudo na desvalorização de produtos que são próprios do feminino, como a função arquetípica da maternidade e seu domínio inefável de comandar uma casa. São próprios das mulheres exercerem a função de liderança e completude nas organizações das casas, inclusive, psíquicas. Parece-me que as mulheres não se apropriaram desse poder transformador do animus, ao contrário, cria uma briga com o poder dos homens, polarizando assim duas tendências: reclamar por não ter direito ou reclamar de ter que fazer tudo feito mulheres “elásticas” em uma batalha solitária que se reflete nos conflitos entre vida maternal e profissional.

Finalizo revelando que esse texto não deve servir de apelo ou resgate aquelas mulheres que cuidavam apenas da casa e dos filhos, mas fazer valer uma reflexão crítica e desafiadora do papel do feminino sob as forças que ligam o eu e o inconsciente, para que assim não ocorra alienação do self, sob um esforço fracassado rumo a pouca consciência.