segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O papel da cultura do desenvolvimento integral dos jovens


Hoje aproveito para postar um texto antigo no qual concorri uma disputada vaga como psicóloga na área educativa. Acredito nesse texto, simplesmente porque pensar cultura é pensar psicologia analítica.

Pensar o jovem na complexidade do mundo contemporâneo é se deparar com impasses, é entrar em uma roda viva de questões políticas, econômicas e sociais, totalizando assim a cultura.

A cultura se inscreve em dimensões simbólicas de uma sociedade, mais que isso, é a própria manifestação das expressões genuínas e desejantes de um povo. É ela que separa o ser humano dos demais animais, anunciando como e o que se insere dentro dela.

Se o indivíduo se inscreve no mundo através da linguagem, à medida que ele cresce, os pensamentos cognitivos vão dando os primeiros sinais. É na juventude, durante o esplendor das descobertas e na euforia das experiências que a cognição alcança seu auge. O jovem aspira e pensa no calor das transformações, necessárias para qualquer evolução e revolução.

Estamos diante do jovem, o ator principal no palco de suas relações. Neste espaço nada é possível se não houver a interação do conjunto de valores morais e intelectuais, que somente a cultura é capaz de agregar, bem como a audácia típica da juventude. Sobre essa combinação de forças é que o texto se propõe a discutir. Basta pensar agora nos cenários dessa trama, são eles os fatores centrais para a compreensão do desenvolvimento integral do jovem.

Como o jovem se desenvolve na educação e no trabalho? Como está a saúde do jovem e o jovem na saúde? A quem ele pede ajuda, a quem socorre? Afinal, onde está esse jovem embrutecido pelas ruas sangrentas e esperançoso diante de um país comprometido com a ascensão? Atribuir uma ordem que totaliza o mundo e ainda responda a essas perguntas são também funções da cultura.

Os jovens estão em territórios físicos e simbólicos, são das ruas, dos guetos, das comunidades virtuais, dos lares, dos espaços promissores e fracassados. Apesar das diversidades, há algo comum entre todos os espaços: a noção de algo estrutural das relações humanas, as trocas. De fato, sem a troca com o outro não há interação, se não há interação, não existe linguagem, e, portanto, não existe um campo capaz de compreensão, observação, classificação e união. Chegamos então à cultura.

A cultura agrega, seduz, faz pensar, encanta, deseja, anuncia e permite a criação de identidades. Apesar de seu aspecto cristalizado - o que permite o tom tradicional aos valores enraizados em uma sociedade - ela é também capaz de atribuir sentidos às ordens, e por esta razão deve ser capaz de se reinventar, modelar e mediar conflitos individuais e coletivos. Dessa forma, nada mais justo do que ressaltar conflitos e possíveis soluções dentro de uma cultura. Se sabemos o que é cultura, basta compreender então a sua prática. De que cultura estamos falando? Em qual cultura a nossa juventude se encontra?

Valores morais, intelectuais e a capacidade de totalizar estão também em três grandes importantes esferas: educação, segurança e saúde. A educação carece de conexões entre a escola e a vida. A violência estampada e escancarada em todos os espaços não pede a ausência do conflito, mas clama pelo saber resolver conscientemente. A saúde pede ajuda para sair dos regulamentos e partir para a prática integral, desejando ser um campo capaz de incluir e deixar-se pertencer.

Atualmente muito se fala em educação e saúde integral para o jovem, no entanto, nenhuns desses dois conceitos - ricos em teorias bem sucedidas - comportam a natureza que somente a cultura pode ser capaz de explicar: a noção de que somos gregários, nascemos em um grupo e existimos a partir das relações interpessoais.

Um olhar não somente sobre as carências afetivas e sociais do jovem, mas sobre as forças que dão lugar e sentido para trajetórias de vidas, é essencial para as construções de identidades individuais. Sendo assim, são possíveis transformações em uma sociedade. O jovem carrega em si esse poder transformador, mas mais que isso, também necessita do sentimento de pertencer. Compreender essa ideia é fundamental para um avanço de uma cultura em direção a novas formas de vir a ser no mundo.

Os caminhos rumo a novas construções simbólicas em uma dimensão subjetiva e singular é a base para mudanças de uma sociedade. A juventude é o fomento dessa nova atitude. Borbulhando vontade e perspicácia, ela cria novas perguntas e novas respostas. Onde elas estão? Se manifestam na arte, na rua, na música, na educação, no trabalho, do lar para a comunidade, da comunidade para o lar. E assim, a sociedade educa a si própria sendo imagem e reflexão. A cultura pode fazer emergir um potencial construtivo e analítico nas relações interpessoais, das quais a juventude aspira.

O jovem inserido dentro desse contexto, ou seja, pedindo e ambicionando, daí a considerar, este é o ponto, funciona como o reflexo da sociedade no qual está inscrito. Ao mesmo tempo em que está aprendendo é também sujeito da ação e do saber. Dessa forma, pensar a importância da cultura é fazer revelar potencialidades infinitas de ações.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Homossexualidade: o mito renegado


O sujeito cartesiano, o sujeito da ciência patologiza. Com todo respeito à psicanálise e aos psicanalistas, a peste Freudiana (como ele se referia a sua descoberta) diante da sexualidade, neuroses, perversões e psicose declarou que a bissexualidade é inata e, que deste forma, portanto, o homem se torna heterossexual ou homossexual. Nessa condição, a homossexualidade apareceria como uma condição patológica. Mas será que essa Freud explica?

Jung pouco escreveu sobre o tema da homossexualidade, mas sabemos e muito das suas teorias a respeito do lado feminino e masculino (anima, animus) que atravessam e armadilham o inconsciente. Homem e mulher, dessa forma, carregam consigo a feminilidade e a masculinidade inconsciente e destarte, uma incompletude inata.

A busca pelo sexo oposto, pode ser, então, uma suposição de completude, entretanto, diante da clinica e das tantas manifestações do vir- a ser no mundo, é senão fácil, muito claro compreender que o que completa cada um, pode ser muito diferente.

Já que estamos no terreno das incompletudes, nada mais justo do que pensar nelas como caminho para individuação, e, portanto, pensar na homossexualidade também é reconhecer um caminho trilhado para se chegar em um fim. Se para Freud nascemos bissexuais, para Jung, nascemos incompletos na vasta direção da totalidade.

Existe um mito curioso que pretendo apenas citar. Nele, o ser humano aparece único, feito do lado masculino e feminino, mas que um dia se parte para ser tornar vários deuses, todavia, o ser humano esquece de perceber que por ser homem, é incompleto, não conseguindo então, se manter dividido É no embrião desse mito que parte a idéia do arquétipo do andrógino. Você já viu um andróide? Quem sabe então um andrógino? Aposto que não! Como aposto também que já ouviu falar desses termos!

Essa idéia é tão presente e tão fantasmática que um dia desses, escutei na televisão a nova moda dos salões de beleza: as cabeleiras nem homem, nem mulher, mas com um só conceito: a idéia do cabelo andrógino. O andrógino é justamente essa figura nem homem nem mulher, e talvez por essa mesma razão, seja uma figura estranha, constituída dos dois lados (como citado no mito à cima).

Portanto, se a humanidade já pensou nessa possibilidade de existir no mundo (o andrógino) e se disso já se surgiu um mito, é porque tem uma base arquetípica.

Jung sustentou no arquétipo do andrógino que a homossexualidade é uma possibilidade enfim, livre da patologia, indo ainda mais longe, pode vir fadada de algo saudável, isso se bem integrada no individuo na trilha da alma e do sentido da vida.