Hoje aproveito para postar um texto antigo no qual concorri uma disputada vaga como psicóloga na área educativa. Acredito nesse texto, simplesmente porque pensar cultura é pensar psicologia analítica.
Pensar o jovem na complexidade do mundo contemporâneo é se deparar com impasses, é entrar em uma roda viva de questões políticas, econômicas e sociais, totalizando assim a cultura.
A cultura se inscreve em dimensões simbólicas de uma sociedade, mais que isso, é a própria manifestação das expressões genuínas e desejantes de um povo. É ela que separa o ser humano dos demais animais, anunciando como e o que se insere dentro dela.
Se o indivíduo se inscreve no mundo através da linguagem, à medida que ele cresce, os pensamentos cognitivos vão dando os primeiros sinais. É na juventude, durante o esplendor das descobertas e na euforia das experiências que a cognição alcança seu auge. O jovem aspira e pensa no calor das transformações, necessárias para qualquer evolução e revolução.
Estamos diante do jovem, o ator principal no palco de suas relações. Neste espaço nada é possível se não houver a interação do conjunto de valores morais e intelectuais, que somente a cultura é capaz de agregar, bem como a audácia típica da juventude. Sobre essa combinação de forças é que o texto se propõe a discutir. Basta pensar agora nos cenários dessa trama, são eles os fatores centrais para a compreensão do desenvolvimento integral do jovem.
Como o jovem se desenvolve na educação e no trabalho? Como está a saúde do jovem e o jovem na saúde? A quem ele pede ajuda, a quem socorre? Afinal, onde está esse jovem embrutecido pelas ruas sangrentas e esperançoso diante de um país comprometido com a ascensão? Atribuir uma ordem que totaliza o mundo e ainda responda a essas perguntas são também funções da cultura.
Os jovens estão em territórios físicos e simbólicos, são das ruas, dos guetos, das comunidades virtuais, dos lares, dos espaços promissores e fracassados. Apesar das diversidades, há algo comum entre todos os espaços: a noção de algo estrutural das relações humanas, as trocas. De fato, sem a troca com o outro não há interação, se não há interação, não existe linguagem, e, portanto, não existe um campo capaz de compreensão, observação, classificação e união. Chegamos então à cultura.
A cultura agrega, seduz, faz pensar, encanta, deseja, anuncia e permite a criação de identidades. Apesar de seu aspecto cristalizado - o que permite o tom tradicional aos valores enraizados em uma sociedade - ela é também capaz de atribuir sentidos às ordens, e por esta razão deve ser capaz de se reinventar, modelar e mediar conflitos individuais e coletivos. Dessa forma, nada mais justo do que ressaltar conflitos e possíveis soluções dentro de uma cultura. Se sabemos o que é cultura, basta compreender então a sua prática. De que cultura estamos falando? Em qual cultura a nossa juventude se encontra?
Valores morais, intelectuais e a capacidade de totalizar estão também em três grandes importantes esferas: educação, segurança e saúde. A educação carece de conexões entre a escola e a vida. A violência estampada e escancarada em todos os espaços não pede a ausência do conflito, mas clama pelo saber resolver conscientemente. A saúde pede ajuda para sair dos regulamentos e partir para a prática integral, desejando ser um campo capaz de incluir e deixar-se pertencer.
Atualmente muito se fala em educação e saúde integral para o jovem, no entanto, nenhuns desses dois conceitos - ricos em teorias bem sucedidas - comportam a natureza que somente a cultura pode ser capaz de explicar: a noção de que somos gregários, nascemos em um grupo e existimos a partir das relações interpessoais.
Um olhar não somente sobre as carências afetivas e sociais do jovem, mas sobre as forças que dão lugar e sentido para trajetórias de vidas, é essencial para as construções de identidades individuais. Sendo assim, são possíveis transformações em uma sociedade. O jovem carrega em si esse poder transformador, mas mais que isso, também necessita do sentimento de pertencer. Compreender essa ideia é fundamental para um avanço de uma cultura em direção a novas formas de vir a ser no mundo.
Os caminhos rumo a novas construções simbólicas em uma dimensão subjetiva e singular é a base para mudanças de uma sociedade. A juventude é o fomento dessa nova atitude. Borbulhando vontade e perspicácia, ela cria novas perguntas e novas respostas. Onde elas estão? Se manifestam na arte, na rua, na música, na educação, no trabalho, do lar para a comunidade, da comunidade para o lar. E assim, a sociedade educa a si própria sendo imagem e reflexão. A cultura pode fazer emergir um potencial construtivo e analítico nas relações interpessoais, das quais a juventude aspira.
O jovem inserido dentro desse contexto, ou seja, pedindo e ambicionando, daí a considerar, este é o ponto, funciona como o reflexo da sociedade no qual está inscrito. Ao mesmo tempo em que está aprendendo é também sujeito da ação e do saber. Dessa forma, pensar a importância da cultura é fazer revelar potencialidades infinitas de ações.

